Tem dias
em que a lua é só um satélite,
uma criança é só um adulto que ainda não cresceu,
e uma flor
não passa de um vegetal.
Dias há em que meus chinelos
servem apenas
para proteger meus pés do frio
e da poeira que se acumula no chão da minha casa,
e minha escova de dentes
precisa tão-somente ser trocada.
Dias em que uma foto antiga
é só o registro de um momento
sem lembrança,
em que um telefonema no meio da noite
apenas perturba o sono,
e a música toca no rádio
nos intervalos das mensagens sem nexo dos locutores.
Em que um charuto apenas produz fumaça e mau-cheiro,
em que um cigarro não vai ser comprado porque não se fuma,
em que uma rosa precisa ser jogada fora porque apodreceu no vaso
e já começa a atrair insetos.
Tem dias em que uma garrafa de tequila custa caro demais,
em que a cachaça é intragável,
em que o vizinho toca a sua campanhia por engano,
em que se vai dormir com fome
porque a carteira está vazia.
Tem dias em que o Afeganistão é só um desenho no mapa,
em que Cuba é uma porção de terra cercada de água por todos os lados,
em que o lençol precisa ser posto na máquina de lavar
mesmo que não se tenha tido tempo de passar no supermercado
para comprar sabão em pó.
Dias existem em que é preciso secar os cabelos ao vento
somente porque a conta de luz está alta
e o secador consome muita energia.
Há dias…
há dias em que os famintos na África são tantos
e tão distantes
e tão inalcançáveis…
Dias em que as unhas não serão pintadas por falta de tempo
ou esmalte
ou acetona
ou tudo junto.
Dias em que um incenso é um palito flamejante com cheiro,
em que a TV é um objeto decorativo,
em que os livros na estante, idem.
Dias há, como este de inverno, em que leite não será tirado de pedra,
porque pedra não se fecunda.
Tem dias
em que a poesia dorme.