
Renasce a sensação
– esperança? –
quando giro
na porta
a chave de casa
de que ouvirei o telefone
a qualquer momento.
Logo depois me lembro:
"É morto." –
ou como fosse.
Posted at 26.7.06 by eulirico
Se eu fosse escolher alguém para odiar –
você.
Odiaria seu sorriso
seu jeito manso e amigável
sua pele e seu cheiro.
Odiaria as lembranças
sua invasão em meus sonhos
enquanto durmo
e acordada.
Odiaria seu senso de auto-preservação
seu estar-sempre-certo
sua irritação por minhas dúvidas
e sua incerteza repentina de amar.
Sim, odiaria principalmente
sua incerteza repentina de amar,
e sua irritação por minhas dúvidas
sobre o seu amor.
Odiaria sua incoerência
e sua tentativa de ser coerente.
Odiaria seus medos
e seu medo de expor seus medos.
Odiaria você
se pudesse escolher
odiar alguém –
você.
Posted at 24.7.06 by eulirico

Concede-me esta última dança
e te mostrarei como posso ser
cruel.
Alisarei teus cabelos
me aproximarei de teus lábios
te olharei nos olhos
minha mão descerá por tuas costas
sob tua couraça
sobre tua pele
e te apertarei
quando te arrepiares
e falaremos de tudo
do teu desprezo
do meu ódio
de como seremos
felizes para sempre
sem mais um toque
meu em ti
teu em mim.
Nesta última dança
– se ma concedes –
falaremos do tempo de nossos avós
do tempo nosso
das tolas promessas
que se repetirão
em nossos lábios
em ouvidos alheios
no tempo que ainda não é.
Falaremos de macarronada e sopas e temperos
e de como cozinho mal
e como aquela tua mania de esconder-se no sono
acabou com o humor
que tínhamos.
Desvelaremos infidelidades
nos sentiremos traídos
arranharei teu braço
morderás minha nuca
até sentires sangue.
E deixarei que escorra
enquanto dançamos
teu corpo grudado no meu
meu sangue em ti.
Mas n'algum momento
olharei para ti
e te verei
como és
sob a couraça
sob a capa
sob o quem-eras
que criei
que criaste
que emplastramos sobre a tua alma
e me olharás
e me verás
despida
nua
braços cingindo-te
e me lerás
dizendo-te
– Vai, se queres,
que não te quero metade.
E dançaremos
até que acabe a melodia.
Posted at 18.7.06 by eulirico
Permalink